A pedido do jornal Zero Hora, escrevi um artigo sobre o tema da minha tese: a nostalgia no cinema.
Segue a página impressa do dia 15 de janeiro de 2022:
Click no link para conferir a matéria no site:
A pedido do jornal Zero Hora, escrevi um artigo sobre o tema da minha tese: a nostalgia no cinema.
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2021 foi mais um ano de pandemia com jogatinas prejudicadas. Ainda assim, o saldo foi maior que o período anterior. Os family games dominaram o ranking, com "Sushi go", "Azul", "Kanagawa", "Ticket to ride", "Queendomino" e "Dream home". Partidas rápidas e divertidas. Também foram para mesa alguns euros, como "Merlin", "Notre Dame" e "The castles of Burgundy". A lista dos 15 principais boardgames segue abaixo:
"- Você acha que é possível enxergar o passado como ele realmente aconteceu?
- Eu vejo o passado como ele realmente aconteceu - respondeu Maeve, olhando para as árvores.
- Mas nós sobrepomos o presente a ele. Olhamos para o passado pela lente do que sabemos agora, então não o vemos como as pessoas que éramos, vemos com os olhos das pessoas que somos hoje, o que significa que o passado foi radicalmente alterado.
Maeve deu uma tragada no cigarro e sorriu"
Livro: "A casa holandesa", p. 51
Em sua estreia na literatura de suspense, Lucy Foley demonstra uma escrita madura e engenhosa para construir a teia de um mistério. "A última festa" acompanha nove amigos de 30 e poucos anos que se conheceram na universidade e, todo réveillon, viajam juntos para algum lugar exótico. Desta vez, na virada para 2018, o grupo decide se hospedar em uma propriedade distante na Escócia, lugar que será palco de um assassinato.
Mais que o crime e a descoberta do assassino, o interessante é descortinar as intrigas envolvendo esse grupo de amigos ao longo dos anos. O cenário idílico, que os deixa isolados após uma forte nevasca, torna tudo ainda mais sufocante. Mesmo com uma conclusão não muito convincente, a resolução do mistério faz certo sentido e, ao menos, não opta por recursos "deus ex machina", uma tendência nas obras recentes do gênero.
"A última festa" é uma narrativa viciante do início ao fim, o que por si só já demonstra uma proeza impressionante da escritora. Os capítulos, muitas vezes, tornam-se pequenos contos, podendo gerar reflexões individuais. E sempre deixam com vontade de continuar a leitura. O chamativo a respeito da obra é a sua inspiração nos romances de Agatha Christie e a forma como Foley humaniza os protagonistas, oferecendo mais e mais camadas psicológicas.
MUITO BOM
Se "1793" estiver em uma prateleira, certamente, será um dos livros mais perturbadores ali presentes. A estreia do escritor sueco Niklas Natt och Dag oferece um retrato da imunda e violenta Estocolmo no século 18. Acompanha-se a investigação de um crime chocante a partir de quatro personagens fundamentais para a trama: o advogado moribundo Cecil Wing, o sentinela bêbado Mickel Cardell, a jovem órfã Anna Stina Knapp e o aprendiz de cirurgião (e também golpista) Kristofer Blix. O caminho destas trágicas figuras acompanhará mortes, práticas de tortura, amputações, estupros, decapitações, tentativas de aborto e de automutilação. Não falta sangue escorrendo pelas páginas do livro.
Niklas poderia ser chamado de sádico em se munir de temáticas nauseantes, porém é extremamente habilidoso em engendrá-las a favor de um instigante mistério que se completa com maestria - e ainda oferece interessantes reviravoltas. Seu talento entrega também uma atmosfera pútrida, cujo fedor exala do livro aberto, para o passado da capital da Suécia, sendo fiel à sujeira e à crueldade do período histórico. Tal ambientação escatológica lembra a de "O perfume", de Patrick Süskind, enquanto a trama flerta com os romances sombrios e eróticos do argentino Federico Andahazi.
"1793" se tornou um fenômeno internacional e ainda recebeu diversos prêmios literários na Europa. Já ganhou a continuação "1974" (ainda inédita no Brasil) e deve ser finalizado como trilogia. De qualquer forma, o primeiro título é uma história concluída, sem necessidade dos demais. O resultado obtido por Natt och Dag (curiosamente, traduzido como 'noite e dia') é um thriller repulsivo e fascinante.
MUITO BOM
"Você nem sabe quem eu sou. Eu sou feita de pedaços, de desenhos, de réplicas... Pedaços de uma mulher que você ama. Eu acho que você ama. Você foge dela, mas você a ama. Você também não é mais o mesmo. Em vez de procurar nas primeiras lembranças dela, encontre o que ela tem de bonito, triste, surpreendente, hoje. Nós não podemos reescrever as pessoas exatamente como gostaríamos que elas ficassem. É necessário aceitar ser decepcionado, ser criticado, ser previsível, ser menos brilhante, ou o que seja, caso contrário, viveríamos somente os inícios".
Trecho do filme "La belle époque" (2019)
Criei uma playlist no Spotify com trilhas sonoras de filmes, principalmente musicais, muitos deles com versões originais ou adaptados da Broadway. Vários são recentes, como "Moulin Rouge", "Chicago", "O fantasma da ópera", "Mamma Mia", "Rent - Os Boêmios", "Hairspray", "Nine", "O rei do show", "La la land - Cantando estações", "Dreamgirls", "The prom", "Rock of ages" e "Os miseráveis".
Há alguns um pouco mais antigos, como "Cabaret", "Grease" e "Cats". E filmes cuja trilha sonora são um destaque: "Labirinto" e suas canções de David Bowie e "Show Bar/Coyote Ugly" com o pop chiclete de LeAnn Rimes. Este é um passeio pelo gênero mais pulsante da Sétima Arte capaz de faz cantar junto e ter vontade de reassistir todos títulos novamente.
Nathaniel: Não me venha com essa besteira existencial. Eu espero mais de você. A questão está na sua frente...
David: Desculpa-me, mas não consigo enxergar.
Nathaniel: Você não está nem um pouco agradecido, né?
David: Agradecido? Pela pior experiência da minha vida?
Nathaniel: Você se apega à dor como se ela valesse de algo. Bom, deixa eu te dizer. Isso não vale de nada. Supere, deixe ir. São infinitas possibilidades, e tudo que você faz é lamentar.
David: Então, o que eu deveria fazer?
Nathaniel: O que você acha? Você pode fazer o que quiser, seu sortudo. Você está vivo! O que é uma pequena dor comparado à isso?
David: Não pode ser assim tão simples...
Nathaniel: E se for?
Six Feet Under S04E12
(poema de Viviane Mosé)
Quem tem olhos pra ver o tempo
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos na pele
Soprando sulcos?
O tempo andou riscando meu rosto
Com uma navalha fina
Sem raiva nem rancor.
O tempo riscou meu rosto com calma
Eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
A vida anda passando a mão em mim.
Acho que a vida anda passando.
A vida anda passando.
Acho que a vida anda.
A vida anda em mim.
Acho que há vida em mim.
A vida em mim anda passando.
Acho que a vida anda passando a mão em mim.
E por falar em sexo
Quem anda me comendo é o tempo
Na verdade faz tempo
Mas eu escondia
Porque ele me pegava à força
E por trás.
Um dia resolvi encará-lo de frente
E disse: Tempo,
Se você tem que me comer
Que seja com o meu consentimento
E me olhando nos olhos
Acho que ganhei o tempo
De lá pra cá
Ele tem sido bom comigo
Dizem que ando até remoçando
Filme: "Grandes Esperanças" (1999)
Comento sobre o filme aqui. E também sobre o artista Francesco Clemente, cujas obras compõem o imaginário pulsante na tela.
A quarta temporada de "Elite" serviu apenas para uma coisa: conhecer o talento de Ambar Lucid <3 Recomendo todo o álbum "Garden of Lucid" (2020).
Fantasmas
Destiny left its mark in the room
It's got me open wide, now I'm waking at noon
How can I forget your presence
When having you around just isn't so pleasant?
Ao contrário de outros hábitos culturais, os jogos de tabuleiro pegaram um pouco de poeira durante 2020. A pandemia impediu a realização de jogatinas presenciais. Ainda assim, 35 jogos foram para mesa em 101 partidas. A maioria delas tendo sido realizadas nos três primeiros meses do ano, sem distanciamento social. O resultado, referente aos boardgames preferidos em 2020, segue abaixo:
1° - AZUL e KINGDOMINO - 10 partidas cada
2° - BIBLIOS, EXPLORADORES e LUXOR - 7 partidas cada
3° - CENTURY e DREAM HOME - 6 partidas cada
4° - FAE - 5 partidas
5° - CELESTIA, EXPLODING KITTENS, KANAGAWA e THE QUEST TO EL DORADO - 3 partidas cada
6° - 7 WONDERS DUEL, HADARA, HARU ICHIBAN, HIGH SOCIETY, LUNA, SABOTEUR, TICKET TO RIDE e TTR: PAÍSES NÓRDICOS - 2 partidas cada
7° - ABYSS, ALHAMBRA, A ILHA PROIBIDA, BROOM SERVICE, CATAN, CYCLADES, DESERTO PROIBIDO, FUNGI, JÓRVIK, KRONIA, PANDEMIC, SANTORINI, SCHOTTEN TOTTEN, SOCIEDADE DOS SALAFRÁRIOS e STONE AGE - 1 partida cada
O isolamento social incentivou, durante o ano de 2020, o consumo de entretenimento televisivo. Na retrospectiva, assisti 593 episódios de um total de 59 seriados. Esses números foram quase três maiores na comparação com o ano anterior. Segue abaixo todos os títulos assistidos e, ao final, os 10 melhores:
O livro de John Grisham utiliza uma argumento poderoso para desenvolver seu novo exemplar de thriller jurídico. A crítica social surge em alguns momentos, mas não é a tônica do projeto. O autor foca mais na investigação, a fim de manter o leitor fisgado do início ao fim.
Em compensação, Grisham empolga-se por demais e inclui elementos que não são críveis em uma narrativa inspirada em história real. O escritor chega a criar subtrama que envolve uma casa assombrada, algo totalmente descartável.
"Cartada final" encerra com a sentença do júri, mas não oferece desdobramentos. Poderia ter sido mais enfático na sua mensagem política, mas perde a oportunidade. Ademais, as soluções para um mistério de mais de 20 anos são simplistas. Não há como negar a habilidade do autor em desenvolver uma narrativa envolvente, mas, no fim, parece mais caça-níquel do que obra preocupada em transformar a sociedade.
BOM
27/2020
Adquiri este livro em 2016, assim que foi lançado no país, mas não consegui persistir na leitura. Não era o que eu esperava. Neste "ano literário", decidi oferecer uma nova chance para "Como Woody Allen pode mudar sua vida" e aproveitei muito mais a visão de Éric Vartzbed para os filmes de um dos meus diretores favoritos.
O autor concede uma análise psicológica para os personagens de dezenas de longas-metragens de Allen. Não chega a ser autoajuda, como o título pode induzir. São pensamentos interessantes, organizados tematicamente. Já me cativou pelo fato do filme "A outra", meu preferido, ser o ponto de partida do livro e, também de diversas perspectivas.
Mesmo tendo míseras 80 páginas, esta foi a obra da minha modesta coleção que mais sublinhei trechos. A leitura, certamente, desperta a vontade de (re)ver a filmografia completa do cineasta.
MUITO BOM
26/2020
O escritor argentino utiliza o mito do Santo Sudário de Turim como fio condutor da narrativa. A partir deste objeto, escancara-se o quanto a religião é feita pelos homens, na maioria ardilosos em suas ações em busca da dominação.
O resultado é fascinante, mas o livro tem seus pontos fracos: parágrafos muito longos e descritivos, sendo alguns trechos redundantes e/ou preciosistas. As passagens que envolvem o manuscrito de Christine são cansativas, por exemplo, e enfraquecem o ritmo da narrativa. Também há um atropelo dos acontecimentos nas últimas páginas.
Mesmo com algumas derrapadas na construção, a maioria da parte técnica, "A cidade dos hereges" é poderoso e sua mensagem reverbera por muito tempo depois do término da leitura.
MUITO BOM
25/2020
Six Feet Under S05E03
Na onda de conhecer mais obras de John Boyne, optei por reler o título que o tornou famoso mundialmente. E é compreensível o porquê de "O menino do pijama listrado" ter sido um sucesso. A premissa de duas crianças conversando através da grade de um campo de concentração nazista é muito potente.
Nas páginas, o autor oferece diálogos curiosos e boas reflexões. Porém, carece de uma mão mais pesada e crítica para desenvolver - ou aprofundar - certas questões. Parece que a ideia se esgota rápido, o que faz o livro ser concluído com menos de 200 páginas. Talvez a proposta de ser "infanto-juvenil" tenha freado essa abordagem, deixando a sensação de que "O menino do pijama listrado" poderia ter sido esplêndido, memorável, um clássico. Ainda assim, segue uma ótima leitura.
MUITO BOM
24/2020
O livro reúne momentos inspiradíssimos, como o conto de abertura "Uma questão temporária", e outros nem tanto, vide "Uma casa abençoada". Vale destacar "Quando o sr. Pirzada vinha jantar", "Sexy" e o otimista "O terceiro e último continente". O gosto amargo surge pela forma abrupta como a escritora decide encerrar suas histórias, geralmente provocando frustração.
BOM
23/2020
"Toda vez que você tenta ter uma vida normal, você estraga tudo. Você nunca terá o momento 'felizes para sempre'. Não importa quantos véus você vista. Você não serve para isso. Aceita, em vez de tentar ser o que você não é" - Lisa para Brenda, no seu dia de casamento
Six Feet Under S05E01
William Shakespeare
Este é um dos textos mais curtos do autor inglês, talvez por isso senti um atropelo nos acontecimentos. Já conhecia a história a partir da adaptação literária infanto-juvenil e do filme recente estrelado por Michael Fassbender e Marion Cottilard. Aliás, tenho um fascínio pelos acontecimentos envolvendo o general do exército Macbeth, sua esposa maquiavélica, o colega Banquo, o rei Duncan e as três bruxas proféticas. Por este envolvimento, acreditava que iria me deparar uma "vilã" mais atuante na trama, por exemplo.
"Macbeth" oscila entre uma linguagem acessível e dinâmica com aforismos rebuscados, principalmente em trechos que personagens tendem a filosofar sobre suas ações. Por vezes, torna-se artificial e enfadonho. Mas, como tudo é resolvido rapidamente, não faz desanimar. Quero avançar em mais leituras de Shakespeare em 2021!
MUITO BOM
22/2020
Brenda: Eu senti a sua falta. Nessa situação... (doença e enterro de seu pai)
Nate: Eu também senti a tua falta. Eu não sei o quanto eu mudei, estando com você. Quanto você me fez crescer como pessoa. Eu não seria o que eu sou hoje se eu não tivesse te conhecido.
Brenda: Você me mudou também.
Nate: É mesmo? Como?
Brenda: Você foi a primeira pessoa que eu perdi e me custou algo. Por isso, eu nunca mais estive com ninguém.
Nate: Ninguém?
Brenda: Eu tenho pavor de estragar tudo de novo.
Nate: Você vai encontrar alguém.
Brenda: Essa não é a solução. Você sabe o que eu acho?
Nate: Sobre o quê?
Brenda: Eu não sei. Sobre a vida.
Nate: O quê?
Brenda: Eu acho que é uma questão de sincronia (timing). Sincronia é tudo.
Nate: Você pode ter razão.
Six Feet Under S03E07
"Southernmost" é uma história sobre mudança de perspectiva a respeito da vida. Asher percebe que, depois de anos sendo pastor em uma comunidade isolada e conservadora, não pode viver sobre aquilo que não acredita: valores da igreja, cultura de ódio e falsidade. O estopim é o preconceito a um casal homossexual que se muda para o local. A partir dessa mudança, Asher pega estrada junto do filho para a ilha de Key West, o ponto mais ao sul dos Estados Unidos, a fim de tentar se aproximar do irmão gay que renegou no passado.
O livro de Silas House aborda vários temas urgentes de maneira leve. Utiliza da ficção para transmitir sua mensagem de aceitação da diferença, o que por si só já é poderoso. Esperava que o casal homossexual recém chegado no vilarejo fosse mais desenvolvido nas páginas, gerando uma "guerra" na cidade. Mas, o protagonista foge do confronto, tornando-se uma escolha curiosa da narrativa. Pois, o foco de "Southernmost" é a figura de um sujeito repassando suas escolhas e tentando reverter o tempo perdido para dar lugar ao que realmente importa: o amor.
observação: Minha única crítica vai para o irmão do pastor, Luke, que se tornou padre (?!) e não recebe merecido desenvolvimento na trama.
MUITO BOM
21/2020
Brenda: Eu não quero odiar meus pais mais do que eu já os odeio.
Scott: Você vai acabar perdoando os dois.
Brenda: Também não quero fazer isso. Não quero ser uma dessas pessoas horríveis que sofrem o tempo todo.
Scott: E nos momentos em que sofre?
Brenda: Escolho não sofrer.
Scott: Qual é o problema de sofrer um pouco?
Brenda: Eu sinto que vou morrer.
Scott: Você não morre.
Six Feet Under S02E13
"Quem tem confiança em si não precisa lembrar os outros do seu status social superior, mas os que não a têm acham necessário nos empurrar isso goela abaixo vinte vezes por dia"
John Boyne
Ao redescobrir John Boyne esse ano, resgatei a minha cópia de "O garoto no convés" adquirida em 2009, logo após o sucesso de "O menino do pijama listrado". A leitura confirmou que o escritor irlandês possui um jeito fluído e envolvente com as palavras. Suas narrativas despertam curiosidade e tornam a leitura voraz.
O romance é baseado no episódio verídico de 1789: o motim do navio Bounty. Os fatos são apresentados pelo ajudante do capitão, a partir de um viés novelesco. São quase 500 páginas para um trama interessante, porém previsível e, por vezes, repetitiva - principalmente ao abordar o traumatizante passado do protagonista. De qualquer forma, o passatempo é garantido e, de quebra, sabe-se mais sobre um relato de sobrevivência que entrou para a História.
observação: bizarra a tradução do título para português, uma vez que, no original, é "O motim do Bounty" ("Mutiny on the Bounty"). "O garoto no convés" provavelmente foi escolhido pela Companhia das Letras a fim de pegar carona do livro mais famoso do escritor.
BOM
19/2020